Expedição Lagamar - Trip Pedrinhas
- Monica Novaes
- 1 de jul. de 2017
- 5 min de leitura
Nível de Remada: Médio
A fim de saber mais sobre a saúde do manguezal saí em expedição para um dos locais, aqui na Ilha, onde ele é mais preservado.
Hoje a remada é no Lagamar de Pedrinhas!

Natureza farta, vida animal abundante e cenário deslumbrante! A escolha não poderia ter sido melhor...
Dei uma boa conferida no equipamento, porque o lugar é afastado e se falta alguma coisa a remada não rola. Também abusei do protetor solar e coloquei o repelente na mochila, lá tem muito inseto e, em algumas épocas do ano, as temidas mutucas.
Com todo o equipamento no carro chegou a hora de pôr o pé na estrada...
Estrada, que por sinal, é um encanto!
Toda cercada de vegetação nativa com bromélias, cactos, palmeiras e arbustos. Vale uma passagem tranquila, admirando tudo e evitando acidentes pois a região tem grande trânsito de animais silvestres.


O caminho pra se chegar lá é bem fácil: Beira-Mar sentido sul (como quem vai para Cananéia) até o final do asfalto. Acabou o asfalto, segue pela estrada de cascalho, ao todo são uns 32 quilômetros e é só ir seguindo as placas, não tem erro!

O cenário que encontrei foi de cair o queixo! O lugar é simplesmente lindo e o canal estava um espelho, sem vento e sem correnteza... O plano era atravessar esse canal principal até a outra margem e acessar os canais menores que passam por dentro do manguezal.

Na metade do canal a primeira surpresa!!! Um bando de botos pescava e brincava por ali... Um espetáculo. Esguichavam água, faziam barulho, circulavam o SUP. Um grupo chegou muito perto de mim, e eu não sabia se ria, fotografava ou remava. =D Estavam espalhados em pequenos grupos e, ao todo, deviam somar uns 15 botos espalhados pelo canal. Fiquei por ali até eles se afastarem e segui remando até meu objetivo.

Já na outra margem o canal se dividiu em vários outros canais por entre ilhotas de mangue e bancos de areia. Escolhi um deles e segui... A água estava escura e barrenta por conta das enchentes que desceram com o Ribeira na última semana. A minha frente o vale crescia e desenhava contornos verde escuro no horizonte!

Logo na primeira curva o canal se dividiu em mais um braço e, enquanto analisava por onde seguir, pude ver os belos guarás pintando de vermelho as árvores do manguezal. Segui em ramada mansa, sem fazer muito barulho que é uma das vantagens de se estar navegando de SUP e parei bem embaixo da árvore em que eles estavam pousados. Pude fazer belos cliques dali enquanto observava a algazarra dos guarás disputando um lugar no galho. Estavam em um bando grande, de aproximadamente 30 aves, o que me chamou atenção já que os guarás são aves migratórias e só aparecem por aqui em determinadas épocas do ano. A permanência deles no manguezal de Pedrinhas mostra que o negócio está farto por aqui. =D Logo eles perceberam minha presença e saíram em revoada dando mais um show, dessa vez no céu...

Bora continuar a remada porque o caminho é longo... A cada curva, uma surpresa, novos canais, uma vegetação farta, aves e peixes saltando da água. Conforme fui avançando a vegetação foi ficando mais densa e a sensação de estar mais próxima dos vales aumentou. Remei por uns trinta minutos nesse canal principal.

Encontrei uma ilhota de mangue no meio do canal que me pareceu ser o local ideal para um descanso. Tinha uma boa sombra e uma brisa fresca soprando por ali... Aproveitei para hidratar e meditar um pouco, a energia desse lugar é muito forte e meditar ao som de água corrente, balançar de folhas e canto de pássaros foi mágico!

Mas, como o objetivo era explorar, bora pegar o remo e sair por aí... Entrei em um canal paralelo bem mais estreito e de vegetação mais densa. A água, apesar de barrenta, estava um espelho. Não tinha vento nem correnteza...

Remei bem próximo ao manguezal e pude observar bem de perto as enormes raízes que sustentam as árvores neste solo úmido, salgado, lodoso e pobre em oxigênio, porém, muito rico em nutrientes. O cheiro típico de matéria orgânica em decomposição era intenso, deixando o lugar com um certo cheiro de podre. Cruzei com caranguejos e garças! O manguezal é considerado um grande "berçário" natural e sustenta todo um ecossistema de crustáceos, peixes e aves que usam esse espaço para se abrigar e reproduzir.

Cerca de 95% do alimento que o homem captura no mar vem do manguezal e sua saúde reflete, também, na subsistência de vilas e comunidades pesqueiras. E ver sacolas plásticas penduradas nas raízes dessas árvores me deixou um pouco assustada. Esse canalzinho estava bem distante de qualquer área habitada e mesmo assim já havia sido tocado pela poluição. Há uma necessidade urgente em se alertar as comunidades ribeirinhas e toda a sociedade da importância em se preservar esse ecossistema tão rico e tão importante. Atitudes simples e conscientes como o descarte correto desses materiais já surtirão um resultado positivo. Vamos espalhar essa ideia! ;)

Conforme fui avançando, o canal foi ficando mais denso, com muitas árvores caídas e obstáculos naturais que deram um ar de aventura pra remada... #adoro! Teias de aranha se estendiam de uma margem a outra deixando óbvio que há muito tempo ninguém passava por ali.

Como o dia foi de surpresas eis que no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho... :p Até agora não entendi o porque dessa intervenção humana aqui no meio do nada. Era um pedaço de concreto como que uma base para uma ponte que vinha não sei de onde e ia para lugar nenhum, afinal dos dois lados só tinha lodo e árvores. Se descobrir o que é volto pra contar! ;) Depois dessa e depois de muita remada canal adentro sem esperança de achar um atalho, resolvi dar meia volta e voltar para o canal principal. O sol já estava bem quente e sem vento a coisa esquentou muito!

Depois voltar para o canal principal precisei dar uma parada para hidratar e repor as energias. Por sorte tinha essa ilhota a minha disposição! A maré já tinha enchido e o vento tinha aumentado bastante. A volta até a vila seria bem mais puxada.

E essa volta valeu cada remada! Mesmo remando contra a maré e exigindo um pouco mais do condicionamento físico voltei curtindo o lugar, fotografando e me superando a cada remada. A natureza ajudou muito... Aves cruzavam o canal o tempo todo, peixes enormes saltavam da água e a mata sem fim me incentivaram a fazer remadas firmes e tranquilas.

Duas horas de remada depois eu estava de volta à vila feliz e realizada. Na bagagem uma garrafa de água vazia e muito material para contar sobre essa expedição maravilhosa... Nas mãos algumas bolhas e no coração uma vontade imensa de voltar e explorar cada cantinho desse universo de águas e natureza!

Depois dos equipamentos guardados e do corpo alimentado só o que me restou foi desfrutar do final de tarde que anunciava ser incrível. A vila é encantadora e me convidou a ficar um pouco mais...

Valeu cada segundo bem aproveitado nesse pedaço de paraíso. Resumo da expedição? Remar faz bem para o corpo, para a saúde e para a mente, agora remar em um lugar como esse faz bem para a alma... Vem viver essa aventura com a Tribo do Remo!